A evolução histórica das formas de testamento no direito civil brasileiro: da codificação à era digital

Autores

DOI:

https://doi.org/10.18378/rbfh.v14i2.11461

Palavras-chave:

Direito das Sucessões; Testamento; Formalismo; Testamento Digital; Autonomia Privada.

Resumo

O presente artigo tem como objetivo examinar a evolução histórica das formas de testamento no Direito Civil brasileiro, iniciando na recepção do modelo romano-canônico até chegar nos  desafios contemporâneos impostos pela era digital. A pesquisa parte da constatação de que o sistema sucessório brasileiro, ao manter, no Código Civil de 2002, a estrutura formalista prevista no Código de 1916, não se mostra apto a recepcionar as novas formas de manifestação de vontade surgidas com a digitalização das relações sociais. Para atingir o objetivo, o estudo adota abordagem qualitativa, de natureza jurídico-dogmática, com base em revisão bibliográfica de autores clássicos e contemporâneos, nacionais e estrangeiros, além da análise sistemática das normas civis pertinentes. Demonstra-se que, embora o formalismo sucessório cumpra funções essenciais, como a autenticação da vontade, a prevenção de fraudes e a estabilidade jurídica, ele não deve ser compreendido como obstáculo intransponível à eficácia da autonomia privada. A ausência de regulamentação específica sobre o testamento digital gera insegurança jurídica, comprometendo a efetividade da liberdade dispositiva, especialmente quanto à sucessão de bens digitais, como perfis em redes sociais, criptoativos, arquivos em nuvem e produções intelectuais digitais. À luz da dignidade da pessoa humana e da proteção da personalidade post mortem, defende-se a necessidade de reinterpretar o formalismo testamentário de modo funcional e proporcional, admitindo a validade de manifestações digitais quando presentes elementos de autenticidade, integridade e intencionalidade. A análise de experiências comparadas, como as do Reino Unido, Canadá e Austrália, reforça a viabilidade de regulamentação do testamento digital como forma legítima de expressão da vontade post mortem. Conclui-se pela urgência de atualização normativa no Brasil, capaz de harmonizar tradição dogmática e realidade tecnológica, assegurando a tutela efetiva da vontade testamentária no contexto da sociedade digital.

Referências

ALBERTA LAW REFORM INSTITUTE. Creation of electronic wills: final report 119. Edmonton: ALRI, 2023. ISBN 978-1-896078-88-5.

ANTUNES, Gabriela Cristina; MENEGUCE, Cassia Pimenta. As limitações ao direito de testar no ordenamento brasileiro. RECIMA21 – Revista Científica Multidisciplinar, v. 5, n. 11, 2024.

BALDUS, Christian; KADIR, Michel. Testamentsformen im Wandel. Berlin: Mohr Siebeck, 2018.

BEVILÁQUA, Clóvis. Código Civil dos Estados Unidos do Brasil comentado. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1919.

CARBONNIER, Jean. Droit civil. Tome 3: La famille. Les successions et les libéralités. 21. éd. Paris: Presses Universitaires de France, 2010.

COSTA, Pedro Manuel Oliveira. As Sucessões na História do Direito Português. Lisboa: Almedina, 2012.

DINIZ, Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro. v. 6: Direito das Sucessões. 40. ed. São Paulo: Saraiva, 2023.

FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Direito das Sucessões Esquematizado. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2024.

FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Direito das Sucessões. 18. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2022.

GAIUS. Institutas. Tradução de Paulo Rosas. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária, 2017.

GOMES, Orlando. Sucessões. 17. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2019.

GOMES, Orlando. Sucessões. 18. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2023.

GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro. v. 7: Direito das Sucessões. 20. ed. São Paulo: Saraiva, 2022.

GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito Civil Brasileiro. v. 7: Sucessões. 23. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2024.

HELMHOLZ, Richard H. Canon Law and Ecclesiastical Jurisdiction from 597 to the 1640s. Oxford: Oxford University Press, 2014.

HIRONAKA, Giselda Maria Fernandes Novaes. Sucessões. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2019.

JUSTINIANO. Institutas do Imperador Justiniano. Tradução de Eduardo Vera-Cruz Pinto. Coimbra: Almedina, 2018.

LANGBEIN, John H.; WOLK, David C. The law of trusts and estates. 2. ed. New York: Foundation Press, 2016.

LARENZ, Karl. Metodologia da ciência do direito. 4. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997.

LAW COMMISSION (England and Wales). Modernising wills law: final report. London: The Stationery Office, 2025.

LÔBO, Paulo Luiz Netto. Direito das sucessões. 6. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2022.

MAZEAUD, Henri; MAZEAUD, Léon; MAZEAUD, Jean. Leçons de droit civil. v. 2. 10. éd. Paris: Montchrestien, 1967.

MIRANDA, Pontes de. Tratado de direito privado. t. 50: Sucessões. 3. ed. Rio de Janeiro: Borsoi, 1971.

MONTEIRO, Washington de Barros. Curso de Direito Civil: Sucessões. 41. ed. São Paulo: Saraiva, 2020.

PACHECO, Caroline Sousa Silva; MELO, Leonara Oliveira; SANTOS, Sandra Gonçalves. Herança digital no direito sucessório brasileiro: desafios, lacunas e perspectivas regulatórias. Direito em Revista, Paracatu, v. 10, 2025.

PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito Civil. v. VI: Sucessões. 30. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2021.

PLANIOL, Marcel; RIPERT, Georges. Traité pratique de droit civil français. 12. éd. Paris: Librairie Générale de Droit et de Jurisprudence, 1952.

MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes. Tratado de Direito Privado. Rio de Janeiro: Borsoi, 1955.

MIRANDA, Francisco Cavalcanti Pontes. Tratado de direito privado. t. 50. 3. ed. Rio de Janeiro: Borsoi, 1971.

REID, Kenneth G. C.; DE WAAL, Marius J.; ZIMMERMANN, Reinhard (org.). Comparative Succession Law. v. I: Testamentary Formalities. 2. ed. Oxford: Oxford University Press, 2020.

RODOTÀ, Stefano. Il corpo e la vita. Bologna: Il Mulino, 2012.

RODRIGUES JÚNIOR, Walsir Edson; ZANETTI, Pollyanna Thays. Análise crítica das variações da legítima e da liberdade de testar na Ibero-América. Revista Brasileira de Direito Civil, Belo Horizonte, v. 31, n. 4, p. 91-119, 2022.

RODRIGUES, Sílvio. Direito Civil. v. 6: Sucessões. 41. ed. São Paulo: Saraiva, 2021.

ROMANOWSKI, Jocemir; NINGELISKI, Adriane de Oliveira. Testamento digital: desafios e possibilidades no direito brasileiro. Academia de Direito, v. 6, p. 565-588, 2024.

SAVIGNY, Friedrich Carl von. System des heutigen Römischen Rechts. Berlin: Veit, 1840.

SCHWAB, Dieter. Familien- und Erbrecht. 24. Aufl. München: C. H. Beck, 2020.

TARTUCE, Flávio. Direito Civil: Sucessões. 15. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2021.

TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil. v. 6: Sucessões. 2. ed. São Paulo: Método, 2023.

TEIXEIRA, Ana Carolina Brochado; LEAL, Lívia Teixeira (coord.). Herança digital: controvérsias e alternativas. Tomo 1. 2. ed. Indaiatuba: Editora Foco, 2022.

VENOSA, Silvio de Salvo. Direito civil: família e sucessões. 25. ed. Barueri: Atlas, 2022.

WALD, Arnoldo. Direito das Sucessões. 6. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1994.

ZIMMERMANN, Reinhard. The Law of Obligations: Roman Foundations of the Civilian Tradition. Oxford: Oxford University Press, 1996.

Downloads

Publicado

2025-06-18

Como Citar

Pereira, H. (2025). A evolução histórica das formas de testamento no direito civil brasileiro: da codificação à era digital. Revista Brasileira De Filosofia E História, 14(2), 1023–1030. https://doi.org/10.18378/rbfh.v14i2.11461

Artigos Semelhantes

<< < 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 > >> 

Você também pode iniciar uma pesquisa avançada por similaridade para este artigo.